A Vassoura de Bruxa no Sul da Bahia

Atualizado: 17 de Ago de 2019


A história da Vassoura-de-Bruxa é tão longa e complicada, tem tantas versões, que fica até difícil a gente tratar dela. No entanto, vale a pena saber um pouco mais sobre o que se comenta em Ilhéus (BA) sobre esta grave doença que trouxe e traz muitos problemas para a região.



O fungo destrói o pé de cacau e os seus frutos de dentro para fora, deixando-os ocos por dentro e, com o tempo, estes se tornam completamente pretos. A “Vassoura”, como é popularmente chamada a moniliophthora perniciosa, foi diagnosticada na região de Ilhéus em 1989. A partir da chegada da praga, iniciou-se na região uma enorme crise econômica, social e política. O documentário “O Nó: Ato Humano Deliberado”, de Dilson Araújo, relata com detalhes tudo o que ocorreu na região. Na versão do documentário, o fungo foi inserido na região de maneira criminosa. O crime teria ocorrido por conta da grande prosperidade e riqueza dos coronéis do cacau, que representavam, no cenário político, uma grande força para as decisões que eram tomadas. Desse modo, de acordo com o documentário, havia interesse político de que esses ricos fazendeiros não mais controlassem as decisões políticas da região e, por isso, o fungo teria sido trazido da Amazônia (onde o fungo sempre existiu mas que, por questões climáticas, não causa os danos que acometeram as plantações de cacau da Bahia) para destruir as lavouras de cacau. Há evidências ainda que cientistas tenham sido envolvidos na ação criminosa, isso porque a implantação do fungo exige o isolamento dos organismos em laboratório para depois ser feita a contaminação que foi, por sua vez, feita em formato de ‘X’ (xis) na região, o que garantiu o êxito da operação.

Parece uma grande teoria da conspiração, não é? Mas o fato é que é bem inexplicável o fungo ter se locomovido da Amazônia para a Bahia de maneira tão rápida e brutal como ocorreu. E os danos causados foram realmente lastimáveis! A Vassoura representou para todos – ricos e pobres – uma virada drástica na história cacaueira.


A Vassoura-de-Bruxa teve, então, um impacto enorme e devastador para a região. Como exemplo, em conversas com fazendeiros, um deles nos contou que produzia, antes da praga, 2.800 (duas mil e oitocentas) arrobas anualmente e, atualmente, perde-se pelo menos 90% da produção para o fungo, que não representa nem um terço do que se produzia anteriormente. O Brasil já foi o maior produtor de cacau do mundo, exportava seus frutos sem dificuldades. Não por acaso, foi instalada na região uma grande indústria multinacional produtora de massa de cacau ainda em 1965.


Os prejuízos causados pela chegada da Vassoura-de-Bruxa, no entanto, não foram sofridos somente pelos coronéis; os danos foram muito além dos financeiros e de status e poder: houve um considerável aumento de diversos problemas sociais. Para os donos das fazendas, houve aumento nos endividamentos e também o início de grandes brigas familiares. Houve, também, aumento no número de suicídios na região, especialmente ligados a fazendeiros ou pequenos produtores. As frustrações e o aumento da desconfiança com relação ao governo cresceram vertiginosamente, já que todas as iniciativas governamentais implantadas por meio da CEPLAC (Comissão Executiva para o Plano da Lavoura Cacaueira) e do Banco do Brasil a fim de acabar com o fungo, segundo fazendeiros com quem conversamos, falharam. Esses financiamentos fornecidos pelos bancos para recuperação da lavoura exigiam que o fazendeiro desse suas terras como garantia, o que resultou, em alguns casos, em desapropriação das plantações. Uma lástima!


Para os trabalhadores das fazendas e comunidade local, do mesmo modo, foram muitas as consequências. A pobreza aumentou bastante segundo algumas pessoas com quem conversamos à época da realização do meu doutorado. Isso teria ocorrido já que as fazendas não podiam mais manter trabalhadores e, por isso, houve um êxodo rural para os centros urbanos e uma mudança na organização da cidade. As pessoas que vieram do interior para Ilhéus, acostumados a trabalhar na roça, construíram as primeiras comunidades periféricas do centro urbano, passaram a viver em regiões ribeirinhas e sem condições de higiene adequadas, o que ajudou a proliferar diversas doenças. Todos esses problemas fizeram surgir problemas sociais de saúde, educação e segurança pública. Segundo pessoas da região, a violência na cidade de Itabuna, detentora do maior número de homicídios de adolescentes no Brasil – segundo dados de pesquisa da UNICEF (United Nations International Children’s Emergency Fund) em 2012 -, se dá em grande parte pelas consequências da Vassoura-de-Bruxa.


Nem tudo eram flores antes da Vassoura; existiam – e ainda existem! – muitos problemas de ordem legal nas relações de trabalho nas fazendas, por exemplo, podemos escrever apenas sobre isso se for de interesse dos leitores (me conta aqui embaixo!). Mas o fato é que a Vassoura prejudicou a todos: ricos e pobres.


O povo do cacau é lindo, vocês precisam ver! O povo da roça é carinhoso, amoroso, muitos amam aqueles frutos cor de ouro – como dizia Jorge Amado -, e eu pude ver no olhar de Sr. Dedé, por exemplo, um de meus entrevistados durante o doutorado, a dor que representou esse tempo difícil que foi a década de 1990 para a região.


A solução veio com as técnicas de enxertia. Aos poucos, pés de cacau mais resistentes foram enxertados nos pés nativos e, assim, o cacau começou a reagir. A região não está curada, mas há que se conviver com a doença da maneira que é possível para cada um. Quem investe mais em higienização, irrigação, adubação e outras técnicas, tem menos fungo; quem investe menos, normalmente, consegue uma colheita inferior. E assim eles seguem.

Hoje, Ilhéus e seus arredores vivem um novo tempo, cheio de esperança trazida pelo valor agregado que representa o chocolate Bean to Bar. Muitos fazendeiros investem em cacau fino, o utilizado para a produção desse chocolate de qualidade superior, vendido por um preço superior para o mercado interno e externo, o que permite que toda a cadeira produtiva seja melhor remunerada.


Outros investem em turismo e, sabiamente, contam a história da região – belíssima! – que vai de Jorge Amado aos coronéis, passando por todos os aspectos conflituosos das relações trabalhistas e da Vassoura-de-Bruxa. E quanta coisa interessante e linda a gente tem pra aprender com a Cacau e Cultura, o chocolate e as regiões cacaueiras! Imagina o quanto de coisa boa ainda vem por aí! Vamos juntos!


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